ENEM 2024 PPL · questão 15 · caderno azul
Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação... Não, não, — repetia-se ela — é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta. Para depois no entanto pisá-la, repudiá-la sem contemplações. Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refreshavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta.
LISPECTOR, C. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
Nessa passagem, a reflexão feita pela personagem resulta da sua tomada de consciência da
A a E ou 1 a 5 marcam, Enter verifica
Ver resposta
Gabarito: C
dissimulação praticada em nome da convivência.Por que é C
A personagem percebe que reprime seu "animal" (seu eu autêntico) para agradar e ser amada, mantendo uma "bondade" conservada como carne morna, temperada apenas o necessário para não apodrecer. Essa metáfora revela a máscara de bondade que ela usa para se adaptar e conviver, ou seja, a dissimulação de sua natureza verdadeira em nome da convivência social.Assunto
Teoria literária e recursos
Tema: Análise psicológica e recursos estilísticos em prosa modernista
Competência de área 5 · habilidade H17: Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.